A família é a melhor coisa que eu tenho. Amo acordar com a minha filha ao meu lado, olhar para ela e ver a ingenuidade e serenidade em que se encontra. É um ser tão indefeso que só me apetece acompanhar os seus passos diariamente. Com ela a minha vida passou a fazer muito mais sentido. Vivo com ela e vivo para ela. Não há amor nenhum que seja mais forte que um amor que se sente por um filho.
Um filho que estranhamos quando o teste de gravidez dá positivo. Um filho que estranhamos no nosso corpo que sofre diversas metamorfoses durante 40 semanas. Um filho que se deseja. Um filho que se ama. Um filho que se quer muito. Um filho que só se quer bem...aqui não há falsidades. Desde o segundo em que sabemos que vamos ser mães sem hesitar chamamos logo de filho.
Felizmente tenho uma filha linda e saudável e que é a coisa mais perfeita que eu fiz nestes 33 anos. Queríamos muito dar-lhe um mano/a. E no momento que decidimos avançar foi tão rápido que fiquei logo em estado de graça. Adoro este estado que só nós mulheres temos o privilégio de viver. Estava eu de 2/3 semanas quando descobri e ficámos os 3 muito felizes. Era um bebé muito desejado e finalmente íamos ser 4. Ecografias positivas...bebé a crescer, mas eram poucas as palavras que saiam da boca do médico. Ecografia das 10 semanas para ouvir o coração e...parecia que algo não estava 100%. Ecografia das 12 semanas...o membros inferiores do bebé tinham algo e...parecia que não se mexiam. O Dr bem que andava para lá a abanar para ver se a "coisa" dava a volta ("deve estar a ver se consegue ver o sexo do bebé"...pensei eu toda contente), mas não...parecia que se confirmava...continuavam sem mexer. E...aí começou a grande desconfiança e a angustia de que algo não estava na verdade bem. Dia seguinte biópsia para ver se havia alguma doença congénita. Teste negativo ("fiuf"), mas...os membros inferiores continuavam sem alterações (fémur ok, perna do tamanho do pé e curvado, pé ok). O bebé tão desejado, tão querido, que iria ser tão amado tinha displasia esquelética...má formação dos membros inferiores com uma taxa de sobrevivência e de qualidade de vida quase nula. A esperança de que iria nascer saudável sem problemas não existia. A curto prazo não era possível dizerem-nos o que é que iria nascer...podia morrer na barriga, podia morrer no parto, podia ter tantos, mas tantos problemas que era impossível quantificarem e preverem antes de nascer. Foi neste contexto e num cenário triste entre paredes brancas, médicos com batas, casais a fazerem o mesmo que nós que...tivemos de tomar uma decisão. Confesso que não foi uma decisão fácil. Tive para não desistir...tive para dizer "Pára tudo! se não tem nenhuma anomalia congénita...não vou avançar com a interrupção. Eu quero muito este filho, e é injusto ter de decidir. É contraproducente... " Mas...acabámos por assinar um papel e...ir avante com a interrupção da gravidez. Foram poucas as lágrimas que correram no meu rosto. Foi com frieza que lidei com a situação, mas foi com Amor que tomei esta decisão. Com Amor ao bebé...ao filho/a que estava dentro de mim, com amor ao meu marido e com amor à minha filha saudável e que precisa de mim sã, saudável e Mãe. Se tivéssemos avançado com a gravidez faltariam 3 meses para o seu nascimento,e não há dia em que não pense que em Março ia acontecer mais um marco importante na minha vida, mas que já não vai acontecer! Enfim...espero que esta angústia passe com o tempo...e que não me moa tanto como até aqui.
Agora...estamos outra vez a tentar ver se damos outro mano/a...é com ansiedade que aguardo a notícia, é com ansiedade que eu vou aguardar até ao seu nascimento, mas é com amor que o vou receber!
Mãe é aquela que chora pelo filho, que fica doente pelo filho, que dá a vida pelo filho, que vive as angústias pelo filho. Mãe é aquela pessoa que está lá sempre e nem por um segundo vacila ajudar e sobrepor-se a tudo.